Psicologia Ayurvédica
Da mente e do Corpo
Ayurveda
Ayurveda é a antiga “ciência da vida” dos vedas, data de cinco mil anos e é o Sistema de Cura Natural e Tradicional da Índia. Trata-se do lado medicinal dos sistemas yogues do subcontinente indiano, que incluem a yoga, o vedanta, o tantra e o budismo. Hoje em dia, a ayurveda destaca-se na medicina da mente e do corpo, foi além de sua base tradicional e é alvo de atenção em todo o mundo. O Antigo Ayurveda, com sua compreensão da vida e da consciência, não parece arcaico nem obsoleto, mas é uma chave para a medicina do futuro.
Os médicos ayurvédicos não precisam ser chamados de psicólogos. A psicologia já faz parte de sua prática comum, que considera a doença física e mental.
De acordo com o ayurveda, as doenças físicas ocorrem, sobretudo devido a fatores externos como regime alimentar errado ou exposição a agentes patógenos. As doenças mentais afloram, sobretudo em função de fatores internos, como uso equivocado dos sentidos e o acúmulo de emoções negativas. Algumas doenças, como as infeções agudas, apresentam causas quase inteiramente físicas, e podem ser tratadas exclusivamente num nível físico; no entanto, a maior parte das doenças apresenta causas psicológicas, e todas as doenças crônicas têm efeitos psicológicos.
A doença física perturba a emoção e embota os sentidos, e isso pode acarretar perturbações psicológicas. Os desequilíbrios psicológicos têm conseqüências físicas.
A própria maneira de viver que nos é peculiar gera a infelicidade. Temos uma cultura que preza a atividade e que, por isso, é agitada; temos poucos momentos de paz e de satisfação. Molestamos as raízes orgânicas da vida, que são a boa comida, a água e o ar puro, além de uma vida familiar feliz.
Se olharmos para diversas pessoas no mundo à nossa volta, observaremos que não somos apenas semelhantes. A pessoa comum, ou a que pode servir de “modelo”, é uma abstração estatística, sem existência real. Cada um de nós se distingue de muitas maneiras, tanto física como mentalmente. Cada pessoa apresenta uma constituição única, diversa da de qualquer outra pessoa. A forma e o tamanho do corpo, o temperamento e o caráter das pessoas apresentam grandes variações, que devem afetar-nos a saúde e a felicidade.
Precisamos compreender a nossa natureza para ter felicidade e bem-estar na vida. De modo semelhante, devemos compreender a natureza dos outros, que pode ser diferente da nossa, para uma interação social harmoniosa. A alimentação adequada a uma pessoa talvez não seja boa para outra. Alguém pode usar muito condimento na comida, por exemplo, enquanto a outra pessoa talvez não os tolere. De modo parecido, as condições psicológicas favoráveis para uma pessoa podem não ser convenientes a uma outra. A competição pode estimular alguém a realizações maiores, mas intimidar os outros e fazê-los fracassar.
Sem compreender nossa constituição particular nossa saúde enfraquece e adoecemos.
Há três tipos constitutivos principais em conformidade com os três humores biológicos, que são as forças fundamentais de nossa vida física. Esses humores são chamados de:
· VATA
· PITTA
· KAPHA
Corresponde aos três grandes elementos do AR, FOGO e da ÁGUA, do modo como atuam no complexo da mente e do corpo. Os livros ayurvédicos enfatizam os aspectos físicos desses três tipos.
VATA
É relacionado ao Ar. Os interstícios da cabeça, das juntas e dos ossos servem como seu container. Uma pessoa Vata pode ser alta ou baixa, estrutura é franzina e sempre delicada, devido ao seu desenvolvimento muscular deficiente. Tem unhas frágeis, ásperas e quebradiças, cabelos freqüentemente ondulados, crespos e escasso-ralos, os olhos são pequenos e vivos, normalmente fundos, os pés e mãos geralmente frios, nariz curvado e protuberante. O apetite e a digestão variam muito, anseiam por sabores doces, ácidos e salgados e preferem bebidas quentes. Transpiram pouco, menos que os outros, a urina tende a ser escassa, as fezes secas e o sono leve, agitado e curto.
São pessoas ativas, alertas, agitadas e criativas. Andam e falam ligeiramente, mas normalmente cansam-se rápido. São flexíveis, aprendem e esquecem rápido, tendem à dispersão mental. Têm pouca força de vontade e pouca tolerância. Seu poder de raciocínio é fraco e são nervosos, medrosos e sofrem de ansiedade. Precisam desenvolver tolerância, a confiança e a coragem. Podem pensar demais e preocupar-se excessivamente.
Características psicológicas
Os tipos Vata são velozes e ágeis no pensamento, e apresentam interesses e inclinações variáveis. São falantes, informados e intelectualizados; além disso, são capazes de compreender pontos de vista diferentes; podem ser superficiais em suas idéias e pôr-se a falar sem objetivo definido. A mente dessas pessoas por vezes divaga e escapa-lhes ao controle. Enquanto podem ser um tanto informados sobre muitas coisas diferentes, falta-lhes profundidade de conhecimento no que diz respeito a um tema particular. Não raro são indecisos e inconstantes. Não têm determinação, coerência e confiança por si mesmos, chegando a ter, por vezes, uma imagem negativa de sua pessoa.
As pessoas do tipo Vata sofrem com o medo, que é sua primeira reação a qualquer coisa nova ou estranha. São propensos a se aborrecer, angustiam-se facilmente e comumente não têm equilíbrio. Vivem no “medo da vida” e dão à impressão de estar alheios ao que se passa. Sua memória é apenas de fatos recentes, ou erradias. Essas pessoas sofrem vivamente com o excesso de trabalho ou esforço, e tendem a se exceder em tudo o que fazem.
Os tipos do Ar são bons professores, programadores de computador e excelem na comunicação, bem como nos meios de comunicação em massa. Tem o pensamento claro, precisos na escrita e na organização de dados. São bons músicos, porém podem ser por demais sensíveis a todo tipo de barulho. Em geral são criativos e a maioria dos artistas é desse tipo. Essas pessoas podem ser muito sociáveis, e gostam de se misturar a pessoas de todos os tipos.; no entanto, quando o elemento Ar é demasiado, elas ficam sozinhas, hipersensíveis ao contato humano. Isso é porque tem muito a dizer e ignoram de que modo relatar tantas coisas, e não porque são realmente de natureza solitária. Comumente são rebeldes e não gostam de ser líderes e nem seguidores; entretanto, são também os mais flexíveis, adaptáveis e aptos a mudanças dos três tipos, quando compreendem o que precisam fazer.
PITTA
Normalmente são de estatura média, esbeltos, apresentando desenvolvimento muscular, peso e estrutura óssea moderados, podem ter verrugas ou sardas de cor marrom-avermelhadas ou azuladas, a pele geralmente é clara, amarela ou propensa ao tom cobre, suave, morna, de aspecto saudável, mas facilmente irritável.
O cabelo é fino e sedoso, castanho ou vermelho, com tendência a ficar grisalho precocemente ou à calvície. Os olhos podem ser cinzentos, verdes ou castanhos claros, com tons de cobre e propensão à fraqueza; à conjuntiva é geralmente úmida e acobreada, as unhas delicadas, macias e o nariz é aquilino/pontiagudo, com as extremidade geralmente avermelhada.
Fisiologicamente, os indivíduos de constituição Pitta têm o metabolismo resistente, boa digestão e consequentemente bom apetite, comem e bebem muito, preferem bebidas geladas, sabores doces, amargos e austeros.
O sono normalmente tem duração média, mas ininterrupto. Geralmente transpiram demais e não toleram calor e nem luz solar.
São inteligentes, com boa compreensão, e perspicazes, e costuma ser bons oradores. Emocionalmente tem sentimentos de raiva, ódio e ciúme. São ambiciosos e líderes natos. Apreciam a prosperidade material e são propensos a uma situação financeira moderadamente confortável.
Características psicológicas
Os Pitta são inteligentes, perspicazes e têm discernimento. Têm um raciocínio agudo e vêem o mundo de modo claro e sistemático; no entanto, pelo fato de suas idéias serem brilhantes, podem ser dogmáticos, críticos ou hipócritas. São propensos à raiva, que lhes constitui a principal reação a acontecimentos novos ou inesperados, e tendem a ser agressivos e dominadores. Tem uma vontade férrea e podem ser impulsivos e obstinados. Essas pessoas dão bons líderes, mas podem ser fanáticos ou insensíveis. Apreciam o uso da energia e da força, e se inclinam à discussão e à violência.
Esses tipos são bons cientistas e amiúde tem uma boa compreensão de mecânica e de matemática. Gostam de trabalhar com ferramentas, com armas. Tem um raciocínio inquiridor e são bons em invenções em geral. Podem ser bons psicólogos e tem introvisões. A maioria dos militares ou dos oficiais da polícia é do tipo Fogo. Gostam da lei e da ordem e vêem o valor da punição. A maioria dos advogados, com sua mente aguda e com seus talentos para o debate é desse tipo, que inclui a maioria dos políticos.
São bons oradores ou pregadores e são convincentes na apresentação de seus argumentos; todavia, podem ser faltos de compaixão e ficam intranqüilos ao ter de ouvir a opinião alheia. Preferem a hierarquia e a autoridade acima do consenso e da democracia.
KAPHA
As pessoas de constituição Kapha possuem bom desenvolvimento físico e muscular, com tendência ao excesso de peso. Caixa torácica bem desenvolvida, veias e tendões são visíveis, devido à pele geralmente fina. Seus olhos são salientes. Sua pele é clara, branca ou pálida, suave, oleosa, úmida e fria. O cabelo pode ser escuro ou louro, liso ou anelado, mas é sempre grosso e abundante. Os olhos azuis, com a conjuntiva pronunciada, geralmente avermelhada. Fisiologicamente as pessoas de Kapha mostram apetite regular, sua digestão ocorre com relativa lentidão e há maior ingestão de alimentos. Sua tendência é movimentar-se vagarosamente. Gostam de comidas acres, amargas e austeras. Sua evacuação é regular, as fezes suaves, pálidas e de eliminação lenta. A transpiração é moderada. O sono é pesado, prolongado ou excessivo. Há uma forte capacidade vital, evidenciada por boa dose de vigor. São pacientes, calmos e sempre bem dispostos. São caracteristicamente tolerantes, compreensíveis e amáveis.
Características psicológicas
Temperamento emotivo e, de modo positivo, são muito amorosos, dedicados e leais. De um modo negativo têm muito desejo, apego e podem ser possessivos ou gananciosos. Essas pessoas são românticas, sentimentais e choram com facilidade.
Há inteligência, são mais lentos na aprendizagem do que os outros tipos, mas retém na memória o que aprendem. É preciso que repitam muitas vezes a mesma coisa para aprender. Não são criativos nem engenhosos, mas realizam coisas e as tornam úteis. São melhores em terminar coisas do que começar. Gostam de dar forma às coisas e criam instituições e estabelecimentos.
Os tipos da Água são tradicionais ou convencionais em seu comportamento e em suas crenças. Gostam de pertencer a alguma coisa, de fazer parte de um grupo. São pessoas felizes e aceitam as coisas do modo como são. São estáveis, mas por vezes são estagnados. Não tostam de mudar e acham difícil a mudança, mesmo quando a desejam. São amigáveis, em particular com pessoas que conhecem, e se apegam à família; entretanto, têm dificuldade para se relacionar com estranhos ou com forasteiros. Conquanto não gostem de magoar os outros, podem ser insensíveis às necessidades dos que não fazem parte do seu círculo. Vez por outra, deixam de lado o seu fardo para abrandar ou carregar o fardo dos outros.
São bons pais e provedores, ou boas mães e esposas. Gostam de assar coisas no forno e de cuidar da casa. Quando são homens, estes podem ser mestres cucas ou trabalhar em restaurantes. Com grande caixa torácica, pulmões fortes e vozes possantes dão bons cantores. Gostam de acumular riquezas e se apegam muito ao que adquirem. Uma vez motivados, podem ser coerentes e muito empenhados.
Três Bioenergias (Tridoshas)
Embora o corpo tenha se desenvolvido a partir dos cinco elementos, sua criação está baseada nas três bioenergias – vata, Pitta e kapha. Esse é um conceito sem igual pra o ayurveda. Poder-se-ia querer perguntar por que foi necessário estabelecer esse conceito, já que a pergunta da composição do corpo já foi respondida com a teoria dos elementos. Essa pergunta pode ser respondida discutindo-se os objetivos do ayurveda.
O ayurveda visa dois propósitos principais – preservar a saúde da pessoa e curar um doente. Toda perturbação no equilíbrio normal dos cinco elementos cria uma doença. Assim como é incontável o número de corpos, segue-se que também é incontável o número de doenças. Portanto, não há nenhuma garantia de que o médico possa achar uma substância específica que devolverá ao corpo o equilíbrio. Além disso, é extremamente difícil determinar a mudança proporcional exata que aconteceu nos cinco elementos e achar as incontáveis causas indiretas de uma doença. Por isso, os médicos ayurvédicos desenvolveram métodos simples para classificar as funções fisiológicas do corpo e sua patologia – as três bioenergias vata, Pitta e kapha.
O ayurveda aceita o conceito de que a célula é a unidade fundamental que governa atividades biológicas relativamente independentes (Caraka, Sarira Sthanam). Assim, a célula pode ser vista como o denominador comum de toda a matéria viva.
Mesmo que as células tenham muitas funções, é possível reduzi-las a três categorias ou grupos.
Movimento – o poder correlato e comunicativo pelo qual uma parte do corpo pode influenciar outra parte, e através do qual ou o corpo todo ou partes do corpo podem ser postos em movimento (bioenergia vata).
Conversão – o poder autônomo e metabólico que é a causa de mudanças bioquímicas (bioenergia Pitta).
Projeto – as forças de alimentação e preservação que protegem o organismo humano e sua reprodução (bioenergia kapha).
As três bioenergias não podem ser vistas como entidades totalmente separadas, já que a matéria viva também cria uma unidade inseparável. Porém, elas estão em relação clara e definida umas com as outras. Quando estão funcionando normalmente, têm características fisiológicas; quando sua função está perturbada, têm características patológicas. Em outras palavras, os fatores das bioenergias são fisiopatológicos.
Quando uma pessoa é saudável, as bioenergias dela estão em equilíbrio. Em tal estado, elas realizam e controlam todas as funções fisiológicas e são chamadas de dhatu (substâncias que apoiam o corpo). Se o equilíbrio é perturbado, todas as funções fisiológicas se desorganizam, o que significa o começo da doença. Esse estado enfraquecido é chamado de dosha (perturbação). Se as três bioenergias estão em desequilíbrio por um período prolongado de tempo ou estão muito perturbadas, elas se tornam tóxicas e devem ser removidas do corpo. São chamadas de mala (substâncias que devem ser removidas do corpo).
Porém, as bioenergia nunca podem ser completamente eliminadas do corpo (assim como podem os resíduos) nem podem ser convertidas no tecido do corpo.
As três bioenergias se desenvolvem a partir dos cinco elementos. Assim, o elemento dominante determina o caráter da bioenergia respectiva. Vata é uma combinação dos elementos éter e ar. O elemento dominante em pitta é o fogo, com o elemento água desempenhando papel secundário, porque o assim chamado fogo da digestão não é um fogo declarado no estômago nem no intestino delgado no sentido literal, mas denota a presença de sucos digestivos enzimáticos. Kapha é uma combinação dos elementos água e terra.
A gama relativamente restrita do equilíbrio das três bioenergias assegura que todas as atividades psicossomáticas no corpo funcionem perfeitamente. Isso representa a saúde ayurvédica. Até mesmo um pequeno desvio da norma de uma ou mais bioenergias é sinal de um estado doentio nas quais as três bioenergias estão hiperativas ou hipoativas. A medicina ayurvédica não espera até que a pessoa demostre sintomas de uma doença, a qual, no pior dos casos, ou não pode ser curada ou requer medicamentos muito fortes. Em vez disso, age quando a causa da doença se manifesta. A ciência ayurvédica fala sobre a hipoatividade ou hiperatividade mínima, nítida ou extrema quanto a uma ou mais bioenergias. Em casos de hiperatividade, a medicina ayurvédica usa medidas antagônicas (substâncias com características opostas); em casos de hipoatividade, usa medidas ou substâncias que são semelhantes nas suas características.
Elementos Básicos das Bioenergias
Elementos | Bioenergias | Características das Bioenergias |
Éter e Ar | Vata | Seco, frio, móvel, leve, penetrante, claro, irregular |
Fogo | Pitta | Ligeiramente oleoso, quente, móvel, líquido, penetrante, desagradável, ácido |
Água e Terra | Kapha | Oleoso, frio, imóvel, pesado, doce, viscoso. |
Por exemplo, muitas doenças reumáticas podem ser atribuídas a um vata hiperativo. O calor é uma medida antagônica, o que significa que os sintomas reumáticos podem ser aliviados com a terapia do calor. Os pacientes que sofrem de reumatismo podem ser encontrados em todo spa, onde normalmente são minorados os sintomas por causa da temperatura da água. De modo semelhante, um copo de água fresca acaba com a sede, o que significa que reduz Pitta e vata, mas aumenta kapha. O resultado oposto é alcançado quando a água estiver aquecida; ela esquentará o corpo, aumentará Pitta e reduzirá kapha e vata.
Vata não mostrará nenhum sinal físico, mas pode ser observada atentando-se para os processos diferentes que acarreta.
Pitta e kapha têm caráter fluido; Pitta é mais leve, e kapha, mais pesado.
Bioenergia Vata
Vata tem as características dos elementos éter e ar; por isso é seco, leve, sutil, áspero, instável e claro. Substâncias com características antagônicas normalizam a hiperatividade e diminuem a hipoatividade. Embora todas as três bioenergias sejam importantes, vata é especial. Não há nenhuma função corporal que não seja guiada por vata, porque Pitta e kapha são considerados lentos ou morosos. Falta-lhes a energia que provoca o movimento. Por isso, vata desempenha um papel significativo em toda terapia. Só vata pode expelir as substâncias tóxicas do corpo; só ele pode cicatrizar feridas e estimular a cura dos órgãos doentes.
Vata controla a divisão celular; a formação de camadas de células; a diferenciação de órgãos; e as atividades do coração, do pulmão, do estômago e dos intestinos. Também guia os impulsos que o cérebro e a espinha recebem dos sentidos; inicia as atividades dos órgãos táteis (os órgãos motores); elimina o material descartável, tais como fezes, urina, transpiração, menstruação, sêmen e o feto. Vata é a força motriz de toda a atividade humana.
O professor M. M. Shastry descreve o movimento de vata (não diferentemente da fórmula da lei de Ohm) como estando em proporção direta a seu poder de motivação e a resistência nos canais do corpo (e tecidos). Assim,
O poder motivacional de vata = o movimento de vata
Resistência dos canais
Todas as três bioenergias existem ao longo do corpo. Porém, em geral, podemos dizer que kapha reside na parte superior do corpo, Pitta na parte mediana e vata na parte inferior. Porém, Caraka também arrola partes específicas do corpo onde as bioenergias vata normais estão situadas. Essas são a bexiga, o reto, a pélvis, a parte superior das coxas, dos pés, os ossos e os intestinos inferiores. Outros autores, como Vagbhata, acrescentam a pele, os ouvidos e o sistema nervoso. Além disso, todas as três bioenergias são divididas em cinco subgrupos.
Pranavata. Prana quer dizer “o ar da vida”. Pranavata apoia as funções vitais da respiração, do ritmo do coração e outras funções vegetativas, como engolir, cuspir ou espirrar e arrotar. Além disso, pranavata reforça as capacidades mental, intelectual e sensorial, e, portanto, ajuda na concentração. Quando pranavata está sem equilíbrio, é possível à pessoa sofrer perturbações sensoriais em partes específicas do corpo, como hipersensibilidade, ou até mesmo confusão mental. Em geral, pranavata é responsável pela nossa habilidade para experimentar a presença do ar, da água, da comida e dos estímulos sensoriais. Esse processo se dá de fora para dentro.
Udanavata. Aqui, o processo se dá exatamente na direção oposta – de dentro para fora. Udanavata inclui a expressão verbal, o entusiasmo, a vitalidade, a força, os esforços físico e psíquico, a cor do rosto e do corpo, e outros.
Lembrar isso, recordar fatos, leva o interior para o “exterior”. Esse conhecimento foi armazenado originariamente pelo poder de pranavata. Assim, lembrar (“conhecer”) também pertence à udanavata. Qualquer perturbação pode levar à perda de energia e da alegria de viver.
Vyanavata. Vyanavata é a força motriz que se desloca do centro para a periferia. Ela guia os movimentos automáticos, transporta os nutrientes pelo coração e o sistema circulatório, e causa a transpiração. Do modo como é descrita por Susruta, ela guia cinco tipos diferentes de movimento (expansão, contração e o movimento da energia do centro para cima, para baixo e para os lados). Problemas no sistema circulatório e um retardamento geral do corpo faz parte de vyanavata.
Samanavata. As funções principais do samanavata (que está perto da energia digestiva, pacakapitta) são o controle neural da secreção dos diferentes sucos digestivos, os movimentos dos canais digestivos, a separação dos nutrientes dos excretos e o transporte desses nutrientes. Quando em desequilíbrio, uma quantidade insuficiente de sucos do estômago é produzida, causando perda do apetite, de peso e coisas afins.
Apanavata. A palavra apana significa “o extremo inferior” e descreve a porção inferior da coluna vertebral. Apanavata separa os fluídos do material sólido no cólon. Guia o processo de micção, a ereção do pênis, a ejaculação do sêmen, o fluxo da menstruação e as contrações do útero durante o processo de nascimento. As perturbações podem causar infertilidade, impotência, abortos, constipação, flatulência e assim por diante.
Um estudo cuidadoso dos cinco subgrupos de vata mostra que algumas funções de vata ainda não foram analisadas – as emoções, a conservação do equilíbrio entre o corpo e o espírito, a formação dos tecidos corporais e a divisão celular.
A hipoatividade de vata é semelhante a um kapha hiperativo, resultando numa sensação de peso no corpo, lentidão e circulação sangüínea insuficiente.
A hiperatividade de vata leva à desidratação; à pele áspera, escura, descorada; à paralisia; ao aumento das fezes; à sensação de frio; à dificuldade na cicatrização; ao envelhecimento precoce.
A Hiperatividade de Vata Acontece
Nas primeiras horas da manhã – cerca de quatro horas
No final da tarde – cerca de dezesseis horas
Depois dos sessenta anos
Depois que o processo de digestão se completa
Depois da ingestão de comida leve, seca, muito fria ou em pouca quantidade
Quando o tempo está frio e seco
Depois de intensa atividade atlética
Depois de esforço em excesso
Depois da relação sexual
Depois de um ferimento
Depois de um banho frio
Quando exausto
Quando se perde tecido corporal
Ao se afligir
Durante ataques de angústia
Ao se preocupar
Durante intensos momentos de alegria
Depois de se assustar
Durante períodos de insônia.
Bioenergia Pitta
A bioenergia Pitta é constituída do elemento fogo e de uma pequena parte do elemento água. Poder-se-ia perguntar como podem ser combinados esses dois elementos contrários. O elemento fogo é muito mais do que a chama ao ar livre. A queimação também pode ser causada por fluidos através de atividades enzimáticas e de ácidos.
As características de Pitta são: picante, azedo, quente, líquido, ligeiramente oleoso, penetrante e móvel. Essa energia tem o cheiro de carne crua. Substâncias com características semelhantes aumentarão Pitta; as com características opostas reduzirão Pitta. Susruta escreveu que uma energia de Pitta enfraquecida pode ser curada com medicamentos e terapias que criam calor, ao passo que uma Pitta hipoativa pode ser curada com medicamento e terapia que têm efeitos refrescantes – assim como uma pessoa lidaria com um fogo de verdade.
Pitta produz tecidos corporais (dhatu), excretas (mala) e bioenergias (dosha) a partir da comida. Pitta guia o metabolismo, é responsável por todas as secreções gastrointestinais (estômago e intestinos) e controla a temperatura do corpo, a fome, a sede, a descoloração da pele, a elasticidade e a capacidade de ver. Na arena psicológica, Pitta lida com a coragem, o intelecto, a lucidez, a bravura e a alegria. Embora Pitta esteja presente em toda parte do corpo, ela reside principalmente entre o umbigo e os mamilos. Também pode ser encontrada nas glândulas do suor, nos nodos linfáticos, no estômago e no intestino delgado. Há cinco subgrupos.
Pacakapitta. Pacakapitta é responsável pela decomposição primária do alimento. Samanavata estimula a sua secreção. O lugar proeminente que pacakapitta ocupa é mencionado em todos os manuais. Todas as outras funções de pitta dependem da condição de pacakapitta. A diminuição da função leva não só a problemas no sistema digestivo, mas também desempenha um papel nas outras doenças.
Ranjakapitta. A produção de sangue (rakta) e plasma (rasa) é controlada por ranjakapitta, que também desempenha um papel secundário no processo digestivo. Ela se localiza no fígado e no baço. Uma perturbação causa deficiência na hemoglobina.
Sadhakapitta. Referências em textos clássicos sugerem que sadhakapitta está relacionada estritamente com as capacidades mentais superiores e pode, portanto, ser considerada como tendo uma função psicofisiológica. Isso, por sua vez, está relacionado diretamente com o metabolismo do sistema nervoso e com a síntese de substâncias neuro-hormonais. O processo rápido de retransmitir e converter estímulos sensoriais também é governado por essa energia. As perturbações causam lentidão mental, inteligência deficiente e sentimentos de desesperança.
Alocakapitta. A função natural de Pitta é a conversão. A função de alocakapitta na mandala drishti (retina) do olho é a conversão de raios luminosos (energias do espectro visível) em ação potencial do nervo óptico (vata). Uma perturbação de alocakapitta resulta na diminuição de capacidade de ver.
Bhrajakapitta. A produção da pele normal ou sem cor, a aura do corpo, a absorção e a conversão de substâncias aplicadas à pele e o controle da temperatura corporal dependem de bhrajakapitta. Todas essas atividades são os resultados do metabolismo e estão relacionadas estritamente com o alimento que o corpo recebe. As perturbações de bhrajakapitta causam diferentes descolorações da pele e uma cútis de má aparência. Além disso, a temperatura do corpo se descontrola e a pele perde sua capacidade de absorção.
A hipoatividade de Pitta normalmente causa constipação, sensibilidade ao frio e tez pálida. Os sintomas são semelhantes aos causados pela hiperatividade de vata e kapha.
A hiperatividade de Pitta confere à pele, à urina e às fezes uma cor amarelada. Leva as sensações extremas de fome e sede; uma ânsia por algo frio; uma sensação de calor na pele, nas mãos e nos olhos; hipersensibilidade; alergias; eczema; vertigem; febre e perturbações psicológicas, como raiva, ódio e ciúme. Essa hiperatividade também pode levar as doenças infecciosas.
A Hiperatividade de Pitta Acontece
Ao meio-dia
Por volta da meia-noite
Na meia-idade
Durante a digestão
Depois de ingerir comida quente, salgada, azeda ou muito picante
Durante um jejum
Quando a fome e a sede são ignoradas
Durante uma exposição ao sol forte
Num clima quente
Ao sentir raiva e ódio
Durante intensa atividade intelectual
Bioenergia Kapha
A terceira bioenergia é kapha. Ela é composta dos elementos água e terra. Esses elementos cuidam da integridade estrutural do corpo. As características são: pesado, frio, macio, estável, viscoso e doce. A hiperatividade deveria ser complementada com substâncias que tenham as mesmas características.
Kapha é responsável pela lubrificação, por unir a estrutura do esqueleto (particularmente as juntas) e por contribuir com a estabilidade e o peso. Além disso, é responsável pela potência sexual, pela fertilidade e pela resistência às doenças e à deterioração. Também são incluídas capacidades emocionais, como paciência, força interior e falta de desejo. O grande calor produzido por Pitta deve ser equilibrado através de kapha. Ao mesmo tempo, tecidos corporais devem ser protegidos do stress e do desgaste criado por vata. Além disso, fluidos apropriados garantem que os produtos dos processos bioquímicos sejam distribuídos corretamente ao longo do corpo. Nesse sentido, kapha cuida da homeostase.
As partes superiores do corpo são consideradas o local de kapha; porém, ela também pode ser encontrada em outras partes do organismo. A parte superior do peito é considerada o lugar especial onde kapha reside. Além disso, a cabeça, o pescoço, a garganta, as juntas, a parte superior do abdômen e os tecidos adiposos são mencionados como locais prováveis dessa energia. Há cinco subgrupos de kapha.
Avalambakakapha. Muito desgaste acontece durante a contração constante e a expansão dos pulmões, do músculo do coração e da parte central dos intestinos. Uma proteção útil é fornecida pelas secreções muito diminutas de fluidos controlados por avalambakakapha. As perturbações levam ao aumento nas batidas do coração e ao enfraquecimento do coração e pulmões.
Kledakakapha. Essa energia assegura que o estômago e outros órgãos internos não sejam “digeridos” pelos fortes sucos digestivos (Pitta). Além do mais, ela também protege esses órgãos de alimentos muito quentes ou muito frios. O muco no estômago pode fazer isso umedecendo a comida e decompondo-a em moléculas. A gastrite e a úlcera no intestino delgado são freqüentemente os resultados de membranas mucosas fracas.
Tarpakakapha. Susruta escreve que esta energia se situa no cérebro. Seu propósito é manter a força e os tecidos do cérebro úmidos e frescos. O termo moderno para isso é fluido cérebro-espinhal.
Bodhakakapha. Bodhakakapha confere à pessoa a capacidade de provar. Substâncias perigosas normalmente têm gosto muito ruins e podem ser expelidas imediatamente. Receptores do gosto só reagem a substâncias que são dissolvidas nos fluidos presentes na cavidade oral. A saliva ajuda a falar; é a primeira fase do processo digestivo, e tem propriedades antibacterianas. Perder o sentido do paladar é um sinal de Bodhakakapha perturbada.
Sleshakakapha. As funções principais desta energia são manter todas as juntas do corpo umedecidas e proteger as superfícies dos tecidos em contato umas com as outras. A fraqueza e o desgaste prematuro das juntas são sinais de um sleshakakapha com perturbação.
A Hipoatividade de Kapha normalmente cria uma sensação de vazio, aumento no ritmo cardíaco e uma sensação de que as juntas estão “soltas”. A estabilidade e a resistência dos tecidos estão reduzidas e a mente e as emoções se tornam vulneráveis. Esses sintomas são semelhantes aos de uma vata hiperativa.
A Hiperatividade de kapha causa perda de apetite, náusea, vômitos, sensação de peso, juntas inchadas, tosse acompanhada de muito catarro, necessidade excessiva de sono, letargia, perda de concentração e falta de sangue.
A Hiperatividade de Kapha Acontece
De manhã – por volta das oito da manhã
À noite – por volta das vinte horas
Imediatamente depois de uma refeição
Depois de uma refeição com alimentos doces, oleosos, gordurosos e frios; ou com frutas e legumes com água, com os melões, pepinos, laranjas e uvas.
Depois de tomar muita água
Quando fisicamente inativo
Durante o clima frio e úmido
Quando a pessoa é gananciosa, avarenta e apegada aos bens materiais.
A Coluna Vertebral
Dentro desta abordagem, a coluna vertebral representa a saúde ou a doença de um ser, portanto, tratar do corpo humano através da Massagem Ayurvédica requer compreender a importância da coluna vertebral. Ela se compõe de vinte quatro vértebras, e divide-se em: sete vértebras cervicais, doze vértebras dorsais e cinco vértebras lombares. A estas se juntam mais cinco vértebras fundidas que compõem o osso sagrado e outras cinco ou seis pequenas vértebras que formam o cóccix.
Para reconhecer as vértebras, devem-se tomar como referência os seguintes pontos: A sétima cervical que é mais proeminente na base do pescoço. A décima segunda vértebra dorsal da qual sai a última costela e a Quinta lombar, que é a última antes da massa homogênea constituída pelo osso sagrado. Cada vértebra está relacionada com um órgão, uma glândula ou parte do corpo; como ilustração e orientação, podem citar que se trabalharmos a sétima vértebra cervical e as quatro primeiras vértebras dorsais estarão atuando sobre o reflexo do coração e a glândula timo. Então entender a importância da coluna vertebral dentro da Massagem Ayurvédica é algo sumariamente importante para que você tenha como referência as partes estimuladas e tratadas no corpo, aprendendo a alinhar corretamente cada uma das vértebras. Se a coluna é forte e está corretamente alinhada, a força vital circulará pelo corpo durante muito mais tempo. Se a coluna vertebral é reta, terá bons pensamentos e levará uma vida plena de energia.
Em sânscrito, a coluna vertebral se denomina “Meru Danda”. “Meru” é uma montanha legendária que se supõe ser o centro do macrocosmo e que sustentaria o mesmo. “Danda” se traduz como madeira, sendo a coluna dorsal o centro do microcosmo; por analogia, assim como “Meru” sustenta o corpo do macrocosmo, “Danda” sustentaria o nosso corpo. (Masaje Ayurvédica “La Técnica Tradicional Hindú para el equilíbrio mente e corpo – Marish Hohari Harish”.).
Na coluna encontram-se os principais chakras do corpo etérico, que estão alinhados ao longo de um eixo vertical, paralelos à medula espinhal, estendendo-se da base da coluna vertebral ao crânio, e os outros dois, um entre as sobrancelhas e o outro no alto da cabeça.
O sistema nervoso central e o autônomo funcionam através da coluna, assim como o sistema simpático e parassimpático. Os centros psíquicos atuam através das glândulas endócrinas e influem na química corporal, que no cérebro humano reflete em forma de respostas emocionais. O sistema nervoso atua estendendo suas ramificações por todo o corpo através das vértebras. Então, por vezes uma massagem curativa na coluna é o suficiente para se curar ou amenizar distúrbios nervosos e transtornos psíquicos.
Desta forma, deve-se ter cuidado ao massagear a coluna vertebral para não utilizar movimentos muito ligeiros ou demasiadamente fortes. Os movimentos muito ligeiros podem provocar fantasias no paciente, os movimentos demasiadamente fortes podem provocar lesões nos nervos espinhais.
A coluna vertebral é um dos fatores determinantes da saúde física e mental. Em momentos de pessimismo, profunda tristeza, melancolias, pode observar que a coluna vertebral inclina-se para frente, diminuindo a abertura torácica, mecanismo este que simboliza o fechamento do indivíduo para vida; essa condição implica no fluir natural da energia vital, prejudicando a circulação sangüínea, a dinâmica respiratória e o metabolismo. Por outro lado, em momentos de alegria, excitação, atividades gratificantes, a coluna se mantém erguida com uma abertura significativa da caixa torácica simbolizando que o indivíduo está completamente aberto para a vida. Seu diafragma está expandido, seu fluxo respiratório está normal e o seu metabolismo modifica-se facilitando o equilíbrio fisiológico do corpo. O terapeuta poderá alinhar a coluna vertebral através da massagem minuciosa, feita com óleo, usando os dedos polegares lateralmente na coluna espinhal com trajetória ascendente, ou seja, em direção caudal-cefálica, sendo que ao final de cada vértebra deve ser aplicado um movimento circular com o objetivo de ativar e estimular todo o corpo vertebral. Como conseqüência, as pessoas que recebem este tipo de tratamento ao longo de suas vidas poderão chegar à idade senil obtendo grandes benefícios, melhorando seus transtornos funcionais gástricos, renais, hepáticos, pulmonares e cerebrais.
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